Por Raique Almeida
É comum ouvirmos de familiares afirmações como: “Meu filho passou por tratamento e parou de usar substâncias”. No entanto, percebem que ele passou a apostar compulsivamente em jogos de azar, como apostas esportivas, envolvendo valores altos quinhentos mil, um milhão de reais e mantendo esse padrão de forma obsessiva. Isso revela que a conduta adictiva não foi de fato eliminada, mas apenas deslocada para outra área.
A principal questão na adicção não reside exclusivamente no consumo de substâncias ou na prática de determinado comportamento, mas na ausência de limites. Pessoas com conduta adictiva tendem a perder a capacidade de estabelecer e respeitar esses limites. Por essa razão, muitas vezes perdem o controle não apenas com as drogas, mas também com a alimentação, a prática excessiva de exercícios físicos, o uso do celular ou o comportamento sexual compulsivo. O descontrole, antes centrado em uma substância, pode migrar para outras áreas da vida.
Durante o processo terapêutico, é essencial enfatizar a importância do equilíbrio e da moderação em todas as esferas da rotina. Isso pode incluir limitar o tempo de exposição à televisão, ao celular, à atividade física, entre outros por exemplo, uma hora por dia para cada atividade. É necessário reaprender a se autorregular, pois o cérebro do adicto está constantemente em busca de algo a que possa se apegar. Ainda que certos comportamentos pareçam socialmente aceitáveis ou menos nocivos do que o uso de drogas como assistir TV por horas seguidas, o padrão adictivo permanece.
O cérebro entende que, se há descontrole em uma área, há potencial para descontrole em outra. Um exemplo ilustrativo: uma pessoa decide seguir uma dieta rigorosa, elimina os doces, mas, ao se deparar com uma alternativa “saudável”, consome compulsivamente. Quando aquele alimento termina, ela racionaliza que tem controle e substitui por outro item, e o ciclo se repete. Da mesma forma, um adicto que passa a consumir cerveja sem álcool pode, em um momento de distração, aceitar uma bebida alcoólica em uma festa e recair. Por isso, todo excesso deve ser observado com atenção, pois pode representar um sinal real de risco de recaída.
Esse fenômeno também é observado em pessoas que abandonam o uso de substâncias por meio da religiosidade processo conhecido como teoterapia, mas que acabam desenvolvendo um fanatismo. Se antes frequentavam o culto uma vez por semana, agora participam de atividades religiosas de manhã, à tarde e à noite, todos os dias. A adicção apenas mudou de forma. O equilíbrio é fundamental em todas as áreas da vida. Como afirmou Freud, a saúde mental está baseada em três pilares: amar, trabalhar e descansar.
É comum vermos pessoas que deixaram de fumar e desenvolveram compulsão alimentar; que abandonaram a maconha e se tornaram dependentes do celular; que pararam com a cocaína, mas se tornaram viciadas em jogos; que deixaram o álcool, mas desenvolveram um comportamento religioso extremo. O que se observa, nesses casos, é uma substituição do objeto da dependência e não sua superação. Por isso, o tratamento deve visar o equilíbrio, e não a simples troca de hábitos.
Outro ponto importante é a tendência ao autoengano. O cérebro do adicto, por sua natureza, tenta convencer a si mesmo e à família de que está tudo sob controle “Estou bem”, “Não preciso mais do grupo terapêutico”, “Já posso parar a medicação”, “As consultas não são mais necessárias”. A rede de apoio precisa estar atenta a essas manifestações e evitar alimentar esses mecanismos.
Adicção é adicção, mesmo que o objeto seja legal ou socialmente aceito. Se um comportamento compromete áreas importantes da vida ou anula prioridades essenciais, ele merece atenção. Essa vigilância vale para todos nós familiares, rede de apoio e qualquer pessoa que, em determinado momento, possa estar vulnerável aos mecanismos da adicção.
Referências:
GABRIELI, Sílvia Maria de Macedo. Adição: da substância à conduta – uma abordagem psicodinâmica da compulsão. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2010.
GOODMAN, A. Addiction: definition and implications. British Journal of Addiction, v. 85, n. 11, p. 1403–1408, 1990.
PELEGRINI, Ana Paula; MORAES, Érica. A mente do dependente químico: uma jornada entre o prazer e o descontrole. Curitiba: CRV, 2020.
MALTZ, Benjamin. Psicodinâmica da adição: subjetividade, sofrimento e compulsão. São Paulo: Escuta, 2014.