Por Raique Almeida
A dopamina, muitas vezes tratada como a “vilã” da história, é, na verdade, a substância química responsável pela sensação de prazer. Produzimos dopamina em diversas situações cotidianas, como ao ouvir uma boa música, ao observar o sorriso de uma criança, ou ao realizar atividades artísticas. Sempre que fazemos algo prazeroso, o cérebro libera dopamina em nosso circuito de recompensa. O problema surge quando esse mecanismo natural é desregulado pelo uso de substâncias químicas.
Pessoas com predisposição à dependência química têm um circuito de recompensa que responde de maneira exagerada aos estímulos de drogas como nicotina, álcool, cocaína ou maconha. Nesse contexto, o adicto não se vicia diretamente na droga, mas na intensa liberação de dopamina que ela provoca. Ao consumir a substância, há uma descarga anormalmente elevada dessa substância no cérebro, causando uma sensação de poder e euforia como se a pessoa “vestisse a capa do super-homem”. No entanto, esse efeito é passageiro. Assim como a dopamina é liberada rapidamente, ela também é reabsorvida com rapidez, gerando uma intensa fissura.
O cérebro, condicionado pelo ciclo estímulo–resposta, interpreta que precisa da substância novamente para restaurar o bem-estar. Repete-se, então, o uso, reforçando a dependência por meio de um mecanismo conhecido como reforço positivo. Com o tempo, o cérebro passa a liberar dopamina quase exclusivamente em resposta ao uso da droga, tornando-se incapaz de sentir prazer em atividades naturais e saudáveis, como trabalhar, estar com a família, praticar esportes ou ouvir música. Esse processo leva ao que chamamos de estreitamento do repertório comportamental, onde a única fonte de prazer possível passa a ser a droga.
Por isso, o adicto, ao perder a capacidade de sentir prazer com experiências cotidianas, dificilmente consegue se abster sem estar em um ambiente protegido como uma instituição terapêutica ou hospitalar. É nesse ambiente que se inicia o processo de recuperação do cérebro, através de estímulos naturais como a musicoterapia, práticas espirituais, yoga, arte e convivência. Esses elementos ajudam a reeducar o cérebro, restaurando a produção de dopamina por vias naturais e reensinando o indivíduo a lidar com limites e regras.
É importante compreender que, para a pessoa adicta, o prazer exagerado proporcionado pela droga torna todas as outras experiências menos significativas. Como exemplo, utilizo a metáfora da alimentação. Alguém que faz dieta, ao ver uma confeitaria e se permitir “só um pedacinho” de bolo, muitas vezes acaba por consumir muito mais. Isso mostra que a memória do prazer está ligada aos órgãos do sentido visão, olfato, paladar, audição e tato. O cheiro de um churrasco, o som de uma música que remete a um momento de uso, o toque, ou mesmo o simples encontro com alguém com quem a droga foi consumida, podem reativar memórias e causar fissura. É a chamada memória eufórica uma lembrança emocionalmente reforçada do prazer proporcionado pela droga, que ativa o desejo por reviver a experiência.
Portanto, quando familiares insistem em relembrar o adicto dos episódios de uso, questionando ou cobrando, estão, muitas vezes sem saber, alimentando essas memórias e, consequentemente, os gatilhos da recaída. O mesmo acontece com ambientes, músicas, cheiros e pessoas associadas ao uso. Em casais em que ambos usavam drogas, por exemplo, se um tenta se recuperar e o outro continua a usar, o estímulo à recaída está constantemente presente.
Não há como manter velhos hábitos, frequentar os mesmos lugares e conviver com as mesmas pessoas e, ainda assim, esperar resultados diferentes. A dependência química não tem cura trata-se de uma forma de ativação dopaminérgica que estará presente por toda a vida, como a cor dos olhos ou do cabelo. O que garante a sobriedade é a abstinência total e a construção de novos caminhos, hábitos e vínculos, onde a dopamina volte a ser liberada por estímulos saudáveis.
Referências:
MOURA, Selma. Dependência química e funcionamento cerebral: compreendendo o papel da dopamina. São Paulo: Editora Vozes, 2020.
CARNIOLI, Jaqueline. Drogas, cérebro e comportamento: uma introdução à neurociência da dependência química. Campinas: Papirus, 2019.
CLEAR, James. Força de vontade não funciona: estratégias baseadas em hábitos e ambiente para mudanças duradouras. Tradução de Eliana Rocha. São Paulo: Alta Books, 2021.
SENA, Cláudia de Oliveira; OLIVEIRA, Rodrigo de. A importância do ambiente terapêutico no tratamento da dependência química. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, São Paulo, v. 16, n. 2, p. 78–86, 2020.
BRASIL. Ministério da Saúde. Prevenção e tratamento do uso de crack, álcool e outras drogas: capacitação para profissionais da saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2014.