Por Adalberto Santana
O artigo apresenta uma análise crítica e profunda sobre como o tráfico de drogas se transformou em um fenômeno global, especialmente no contexto das dinâmicas econômicas e políticas da globalização neoliberal. O autor argumenta que o narcotráfico deixou de ser apenas uma questão criminal local ou regional para se tornar um problema estrutural do sistema capitalista globalizado. Movimentando cerca de 400 bilhões de dólares por ano, essa atividade ilícita supera economias legais inteiras, como a indústria farmacêutica, e representa uma face obscura da economia mundial, funcionando de forma semelhante a grandes corporações transnacionais: com estruturas de produção, distribuição e comercialização integradas e articuladas internacionalmente.
O ponto principal desse processo, Santana destaca o papel central da América Latina como fornecedora de matérias-primas e substâncias ilícitas para os mercados consumidores dos países desenvolvidos. A Colômbia, a Bolívia e o Peru são identificados como os principais produtores de folhas de coca e cocaína, enquanto o México e as ilhas do Caribe atuam como corredores estratégicos para o escoamento das drogas. O Brasil, por sua posição geográfica e suas fronteiras extensas, também emerge como um elo importante tanto na rota de exportação quanto no consumo interno. Essa inserção dos países latino-americanos no mercado internacional de drogas não é acidental, mas está diretamente ligada às estruturas de dependência e às desigualdades históricas entre centro e periferia do sistema internacional.
Santana também chama atenção para a postura dos Estados Unidos diante do narcotráfico, tratando-o como uma ameaça à segurança nacional e, assim, justificando uma série de medidas intervencionistas. A política de “certificação” imposta aos países produtores, as campanhas antidrogas financiadas externamente e a crescente militarização das fronteiras são algumas estratégias usadas para conter o fluxo de drogas. No entanto, o autor critica essas iniciativas por seu caráter seletivo e ineficaz, pois ignoram a alta demanda por entorpecentes dentro dos próprios Estados Unidos e Europa, evidenciando a hipocrisia do discurso oficial. A demanda, e não apenas a oferta, é o motor que mantém viva a economia global das drogas.
Outro ponto relevante abordado no artigo é a crescente participação de países desenvolvidos na própria produção de drogas ilícitas. O autor cita o caso das drogas sintéticas, como o ecstasy, produzidas em larga escala na Europa e nos Estados Unidos, e menciona ainda que cerca de metade da maconha consumida nos EUA é cultivada internamente. Isso desmonta a ideia simplista de que o narcotráfico é um problema que nasce exclusivamente nos países pobres. A produção, o refino e o consumo de entorpecentes estão distribuídos globalmente, e esse cenário reforça a ideia de que o narcotráfico é parte estrutural da economia mundial, atravessando fronteiras e desafiando a soberania dos Estados.
Na conclusão de sua análise, Santana afirma que o narcotráfico é um reflexo das contradições da globalização neoliberal. Ele não apenas se alimenta das desigualdades econômicas e sociais, como também contribui para agravá-las, sobretudo nas regiões periféricas. O autor argumenta que políticas centradas apenas na repressão e na erradicação da produção têm se mostrado ineficazes e que uma abordagem mais ampla que considere tanto os aspectos econômicos quanto sociais da demanda por drogas é essencial para qualquer estratégia de enfrentamento. O tráfico, nesse contexto, não é apenas uma questão de segurança pública, mas um problema profundamente enraizado na lógica do capitalismo globalizado.