Por Raique Almeida
A adolescência é uma fase marcada por transformações biológicas, emocionais e sociais. Nesse período, o sentimento de pertencimento e a busca por aceitação são fundamentais na formação da identidade. Com o avanço das tecnologias digitais, os jovens estão cada vez mais imersos em redes sociais, plataformas de vídeos e jogos online, espaços que influenciam diretamente sua maneira de pensar, sentir e agir. É nesse cenário que surge um fenômeno preocupante: o vício digital como porta de entrada para o consumo químico, especialmente mediado por influenciadores digitais que promovem, romantizam ou naturalizam o uso de substâncias.
De acordo com Castells (2003), vivemos em uma sociedade em rede, na qual as conexões digitais moldam comportamentos e relações. Para adolescentes, que muitas vezes encontram nas telas uma extensão de sua vida social, os influenciadores digitais operam como figuras de autoridade emocional. Não raro, jovens reproduzem hábitos, estilos e falas desses criadores de conteúdo, inclusive em relação ao consumo de álcool, cigarro eletrônico, medicamentos controlados ou drogas recreativas.
Segundo Bauman (2007), vivemos em uma modernidade líquida, em que vínculos frágeis, instabilidade emocional e imediatismo formam o pano de fundo para comportamentos de risco. O uso excessivo de redes sociais promove uma constante exposição à comparação, à performance e à busca por validação, elementos que contribuem para quadros de ansiedade, depressão e compulsões comportamentais. Como aponta Orlandi (2007), o discurso é um instrumento de poder. Quando repetido por vozes com visibilidade digital, pode legitimar práticas como o uso recreativo de substâncias químicas.
Além disso, estudos como os de Young (1999) destacam que os vícios comportamentais, como o vício em internet, compartilham mecanismos cerebrais semelhantes aos vícios químicos. O sistema de recompensa cerebral é ativado em ambos os casos, gerando tolerância e necessidade de estímulos cada vez maiores. Assim, um adolescente que passa horas imerso em vídeos, reels e jogos pode estar mais vulnerável a buscar novas formas de excitação, como o uso de drogas, para manter esse nível elevado de prazer imediato.
É preciso considerar também o papel da ausência de regulamentação e da leniência de plataformas digitais em relação a conteúdos que, direta ou indiretamente, estimulam o consumo de substâncias. Essa negligência facilita o acesso dos jovens a discursos que romantizam a autodestruição como forma de rebeldia ou identidade.
Portanto, a cultura do vício digital, potencializada pela influência de figuras públicas virtuais, não só fragiliza o bem-estar emocional de adolescentes, como pode abrir caminho para o envolvimento com drogas. A educação digital crítica, o fortalecimento de vínculos familiares e escolares e o investimento em políticas públicas de saúde mental são medidas urgentes para enfrentar essa realidade.
Referências
- BAUMAN, Zygmunt. Vida líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
- CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 2003.
- ORLANDI, Eni P. Análise de discurso: princípios e procedimentos. Campinas: Pontes, 2007.
- YOUNG, Kimberly S. Internet Addiction: Symptoms, Evaluation and Treatment. Innovations in Clinical Practice, 1999.