Por Raique Almeida
As injustiças que a própria família pode cometer contra quem sofre com a dependência química. Normalmente, discutimos o impacto negativo que o adicto causa no ambiente familiar o que é real e relevante, mas é igualmente importante refletir sobre como a família, muitas vezes, contribui para a perpetuação do sofrimento, mesmo que de forma involuntária.
A primeira grande injustiça é exigir mudança apenas da pessoa em tratamento, sem que a família esteja disposta a mudar também. Não é justo pedir transformação de um membro enquanto o restante da família mantém comportamentos nocivos, como o consumo de álcool, cigarro ou mesmo outras dependências emocionais. A reabilitação não deve ser individual, mas coletiva. Quando a família se envolve, o processo de cura se torna mais sólido e sustentável. Essa é a base da autoridade moral posso cobrar mudança, se também estiver disposto a me transformar, o exemplo arrasta.
A segunda injustiça é não reconhecer que a dependência química é uma doença. Não se trata apenas de um vício ou de fraqueza de caráter. É uma condição clínica que requer tratamento especializado. Acreditar que basta "força de vontade" para mudar é um erro. Como em outras doenças, é preciso acompanhamento profissional psicológico, psiquiátrico, social e muitas vezes o suporte de grupos como Alcoólicos ou Narcóticos Anônimos. Exigir mudança sem oferecer estrutura ou suporte técnico é desumano e ineficaz. As recaídas, nesses casos, tornam-se mais prováveis.
A terceira injustiça é negar a reintegração familiar e social de alguém que já demonstrou, de forma concreta, sinais de mudança. Se a pessoa passou por tratamento, apresenta exames toxicológicos limpos, demonstra evolução emocional e comportamental, é injusto continuar tratando-a como se estivesse na mesma condição de antes. Isso desestimula, enfraquece a autoestima e pode contribuir para a recaída. A reintegração deve ser gradual, mas possível. Quando há evidências reais de transformação, é dever da família abrir espaço novamente.
Essas injustiças nascem da falta de informação e de preparo. Muitos familiares não sabem como lidar com a dependência química e acabam agindo com dureza, afastando ainda mais o ente querido. Por isso, o tratamento precisa envolver toda a família. É um processo educativo e transformador para todos os envolvidos.
Se você tem um familiar em tratamento, reflita: está cobrando mais do que oferece? Está disposto a mudar junto? Tem procurado se informar e participar ativamente do processo? Tratar a dependência como uma responsabilidade coletiva é o caminho mais seguro para a recuperação verdadeira.
Com consciência, apoio e comprometimento mútuo, é possível reconstruir vínculos, restaurar a dignidade e promover a cura não apenas do adicto, mas de toda a família.
Referências:
Alcoólicos Anônimos (AA). O que é o AA? Disponível em: https://www.aa.org.br. Acesso em: 09 maio 2025.
DIAS, M. K.; FERREIRA, M. N.; MEDEIROS, M. F. O impacto do comportamento familiar no processo de recuperação da dependência química. Revista Saúde & Ciência, v. 23, n. 1, 2017.
MINISTÉRIO DA SAÚDE. Política do Ministério da Saúde para a atenção integral a usuários de álcool e outras drogas. Brasília: MS, 2004.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Lexicon of alcohol and drug terms published by the World Health Organization. Genebra: WHO, 1994.
PEQUENO, M. A.; SANTOS, R. L. S.; OLIVEIRA, L. A. A importância da participação da família no tratamento do dependente químico. Revista Psicologia em Pesquisa, v. 10, n. 2, 2016.