O Sexto Passo em Narcóticos Anônimos: Disposição para a mudança interior
28/08/2025

Por Raique Almeida
O Sexto Passo do programa de Narcóticos Anônimos afirma: “Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de caráter” (NA, 2008). Essa etapa representa uma transição essencial no processo de recuperação, pois após o inventário e a confissão de falhas, o adicto é convidado a desenvolver uma disposição genuína para a mudança interior. Trata-se de um passo que transcende a mera identificação de erros, exigindo um posicionamento ativo diante da própria transformação.
A literatura de NA destaca que a adicção é uma doença que não se limita ao uso de substâncias, mas envolve padrões de comportamento destrutivos, como orgulho, egoísmo, raiva e ressentimento. O Sexto Passo, portanto, direciona o indivíduo a reconhecer tais defeitos como obstáculos ao crescimento espiritual e ao convívio saudável. De acordo com Jung (1961), o processo de individuação requer a integração das sombras pessoais, o que implica não apenas identificá-las, mas também assumir uma atitude consciente em relação à sua superação.
No campo psicológico, esse passo pode ser compreendido como um exercício de aceitação radical. Carl Rogers (1997) argumenta que a mudança pessoal ocorre quando o indivíduo se permite aceitar sua condição atual, sem máscaras ou negações, criando abertura para novas possibilidades de ser. Essa aceitação não significa resignação, mas sim a base para que uma transformação real aconteça. O Sexto Passo, portanto, convida à prontidão — não a um estado de perfeição, mas a uma disposição contínua de deixar que forças maiores e a prática espiritual auxiliem no abandono de velhos padrões.
Do ponto de vista espiritual, o Sexto Passo reflete uma entrega cada vez mais profunda a uma Força Superior. Enquanto nos passos anteriores o adicto reconhece sua impotência e começa a confiar em algo além de si, aqui ele se dispõe a permitir que essa força atue diretamente em sua vida, removendo aspectos que sozinho não consegue modificar. Como afirma Boff (1999), a espiritualidade é uma abertura ao mistério e ao transcendente, que possibilita ao ser humano romper os limites do ego e caminhar rumo à plenitude.
Assim, o Sexto Passo não se resume a um ato isolado, mas a uma postura de vida: estar continuamente disposto a se desprender de hábitos, atitudes e crenças nocivas. É um processo de humildade e entrega que prepara o terreno para os passos seguintes, reforçando a ideia de que a recuperação é uma jornada gradual de autoconhecimento e renovação interior.
Referências
BOFF, L. Espiritualidade: um caminho de transformação. Rio de Janeiro: Sextante, 1999.
JUNG, C. G. Memórias, sonhos e reflexões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1961.
NARCÓTICOS ANÔNIMOS. Texto Básico. 6. ed. Rio de Janeiro: JUNAAB, 2008.
ROGERS, C. Tornar-se Pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 1997.