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— Drogas

Canabidiol: Entre o Tratamento de Doenças e o Debate sobre o Vício

Grupo Messias
Canabidiol: Entre o Tratamento de Doenças e o Debate sobre o Vício

Por Raique Almeida

            O canabidiol (CBD) é um dos principais compostos presentes na planta Cannabis sativa, sem efeitos psicoativos como o tetrahidrocanabinol (THC), seu composto mais conhecido. Nos últimos anos, o CBD tem ganhado relevância na medicina por suas propriedades terapêuticas, especialmente no tratamento de epilepsias refratárias, transtornos de ansiedade, dores crônicas, Parkinson e outras condições neurológicas. No entanto, seu uso também levanta debates sobre possíveis riscos, dependência e o lugar das terapias baseadas em cannabis no cenário médico e jurídico.

            Segundo Zuardi (2006), o CBD tem propriedades ansiolíticas, antipsicóticas, anticonvulsivantes e anti-inflamatórias, o que o torna uma substância promissora no campo da psiquiatria e da neurologia. Estudos clínicos, como o conduzido por Devinsky. (2017), demonstraram que o canabidiol reduz significativamente a frequência de crises convulsivas em pacientes com Síndrome de Dravet e Lennox-Gastaut, duas formas graves de epilepsia infantil resistentes a tratamentos convencionais.

            A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou, em relatório publicado em 2018, que o CBD não apresenta potencial de abuso ou dependência em humanos, diferentemente do THC. Ainda assim, sua associação com a maconha levanta resistências culturais e institucionais, especialmente em países onde o uso da cannabis ainda é altamente criminalizado ou mal regulamentado.

            Outro ponto importante é o uso do CBD no tratamento de dependências químicas. Um estudo de Hurd. (2019), publicado no American Journal of Psychiatry, apontou que o canabidiol pode reduzir os desejos e a ansiedade em pessoas com transtorno por uso de opioides, o que sugere um possível papel no tratamento da dependência de drogas. Isso se dá, em parte, por seu efeito modulador nos sistemas dopaminérgico e serotoninérgico.

            Contudo, ainda existem lacunas quanto à dosagem, à duração dos efeitos e à interação com outros medicamentos. A medicalização do CBD também não está isenta de críticas. Foucault (1979), ao discutir a biopolítica, já alertava que a medicalização dos corpos pode ser uma forma de controle social. Nesse sentido, o avanço do CBD como substância terapêutica também precisa ser analisado à luz de disputas econômicas, políticas e éticas envolvendo a indústria farmacêutica, o racismo estrutural da guerra às drogas e o direito ao acesso universal à saúde.

            Portanto, o canabidiol representa um importante fronteira no tratamento de doenças neurológicas e psiquiátricas, mas também impõe desafios quanto à regulação, ao preconceito e à apropriação desigual de saberes e benefícios. Cabe à ciência, à medicina e à sociedade ampliar o debate, buscando equilíbrio entre evidência científica, justiça social e cuidado integral.

Referências

FOUCAULT, M. Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes, 1979.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Cannabidiol (CBD) Critical Review Report. Genebra: WHO, 2018.
ZUARDI, A. W. Cannabidiol: da medicina alternativa à terapia clínica. Revista Brasileira de Psiquiatria, v. 28, n. 2, 2006.

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