Por Ariane Cristine de Freitas, Bruno Damião, Débora Mantoan Alves, Melissa Ribeiro, Geraldo José Medeiros Fernandes, Wagner Costa Rossi Junior e Alessandra Esteves
O artigo publicado na Revista Brasileira de Medicina do Esporte em 2017, investigou as consequências do uso de esteroides anabolizantes androgênicos (EAA) sobre a densidade neuronal em regiões específicas do cérebro, conhecidas como núcleos da base, utilizando camundongos como modelo experimental. Os autores, ligados à Universidade Federal de Alfenas (Unifal-MG), buscaram compreender os possíveis impactos neurotóxicos dessas substâncias, amplamente utilizadas para fins estéticos e de desempenho físico, apesar de seus potenciais efeitos colaterais.
A pesquisa partiu da constatação de que o uso abusivo de EAA pode provocar alterações significativas no sistema nervoso central, incluindo quadros de agressividade, ansiedade e depressão. Estudos prévios já indicavam que essas substâncias poderiam reduzir níveis de fatores neurotróficos essenciais à sobrevivência neuronal e interferir na ação de neurotransmissores, especialmente no sistema gabaérgico. Com isso em vista, o estudo analisou os efeitos de dois tipos de anabolizantes o cipionato de testosterona (Deposteron) e o stanozolol (Winstrol Depot) sobre a densidade de neurônios nos núcleos estriado e pálido, regiões envolvidas no controle motor e no comportamento.
Foram utilizados sessenta camundongos Swiss, machos e fêmeas, divididos igualmente em três grupos: um tratado com cipionato de testosterona, outro com stanozolol e um terceiro grupo controle, que recebeu apenas solução salina. Durante o período de administração das substâncias, os animais também foram submetidos a sessões de natação, como forma de exercício físico padronizado. Após o término do tratamento, os cérebros dos animais foram coletados e analisados histologicamente, utilizando coloração com violeta cresil para identificação e contagem dos corpos celulares neuronais nas regiões de interesse.
Os resultados mostraram que não houve alteração significativa na densidade de neurônios do núcleo estriado em nenhum dos grupos, independentemente do sexo dos animais. No entanto, no núcleo pálido, observou-se uma redução estatisticamente significativa no número de neurônios dos camundongos machos que receberam Winstrol Depot, com uma média de 13 perfis neuronais contra 23,2 observados no grupo controle. Curiosamente, essa diminuição não foi verificada nas fêmeas tratadas com o mesmo composto, sugerindo um possível efeito dependente do sexo.
A discussão levantada pelos autores aponta que essa neurodegeneração pode estar relacionada a alterações nos níveis de BDNF (fator neurotrófico derivado do cérebro), cuja redução compromete a sobrevivência e plasticidade neuronal. Também se considera a interferência nos receptores gabaérgicos, fundamentais para o equilíbrio da atividade elétrica cerebral, sobretudo nas áreas inibitórias como o núcleo pálido. Outro ponto relevante é a modificação estrutural do stanozolol, que possui uma alquilação na posição C-17, tornando-o mais resistente à metabolização hepática, mas também potencialmente mais tóxico.
A conclusão do estudo é clara ao alertar para os riscos do uso indiscriminado de anabolizantes, sobretudo o stanozolol, que demonstrou causar perda neuronal significativa em uma região cerebral crítica. O trabalho reforça a necessidade de conscientização sobre os perigos do uso não supervisionado dessas substâncias e destaca a importância de pesquisas adicionais para entender melhor os mecanismos de ação e os efeitos a longo prazo no cérebro. Essa investigação representa uma importante contribuição para o campo da neurociência e da farmacologia, ao evidenciar o impacto real que compostos utilizados com fins estéticos podem ter na integridade do sistema nervoso central.