Danos ao Corpo Causados pelo Uso Prolongado de Solventes de Cola: Uma Revisão Integrativa

27/07/2025

Danos ao Corpo Causados pelo Uso Prolongado de Solventes de Cola: Uma Revisão Integrativa

Por Raique Almeida

            O uso crônico de solventes inalantes, como a cola de sapateiro, representa uma grave ameaça à saúde física e mental de seus usuários, especialmente entre adolescentes em situação de vulnerabilidade social. Essas substâncias, geralmente compostas por tolueno, acetona e outros hidrocarbonetos voláteis, são altamente lipossolúveis, atravessando com facilidade a barreira hematoencefálica e acumulando-se no cérebro, o que resulta em significativos danos neurológicos. Estudos demonstram que o uso prolongado leva a alterações cognitivas, atrofia cerebral, prejuízos de memória e quadros irreversíveis de encefalopatia (FERREIRA; MONTEIRO; NASCIMENTO, 2019). Além do sistema nervoso central, o fígado e os rins também são comprometidos. A exposição contínua ao tolueno pode causar necrose tubular renal e hepatite tóxica, além de elevar os níveis de estresse oxidativo no organismo, contribuindo para processos inflamatórios crônicos e falência orgânica (SANTOS; COSTA; ALMEIDA, 2020).

            No sistema cardiovascular, o uso abusivo desses solventes pode provocar arritmias graves e risco de morte súbita, em especial devido à sensibilização do miocárdio às catecolaminas. Em usuários crônicos, também se observam quadros de anemia, leucopenia e outras alterações hematológicas, causadas pela toxicidade dos compostos químicos à medula óssea (RODRIGUES; OLIVEIRA, 2018). Além dos impactos fisiológicos, o uso de cola tem efeitos psicossociais relevantes, como retraimento social, desorganização afetiva e desenvolvimento de transtornos psiquiátricos como depressão e psicose. Conforme relata Dias. (2017), a exposição contínua a inalantes compromete o funcionamento do sistema dopaminérgico, reduz a motivação e agrava a dependência psicológica.

            Os danos físicos visíveis incluem perda de peso, má nutrição, feridas ao redor da boca e nariz, dermatites de contato e deterioração da higiene corporal. Tais sinais indicam não apenas os efeitos tóxicos da substância, mas também o abandono progressivo do autocuidado e o avanço da deterioração psicossocial. Em muitos casos, a interrupção do uso não é suficiente para a reversão total dos danos, especialmente os neurológicos e hepáticos, o que reforça a necessidade de intervenções precoces e programas de reabilitação multidisciplinar. A atenção a essa problemática exige políticas públicas eficazes, educação preventiva e ampliação dos serviços de acolhimento e cuidado para populações em risco. O uso de solventes, embora muitas vezes invisibilizado, é uma das formas mais devastadoras de dependência química e exige resposta urgente da sociedade e dos sistemas de saúde.

Referências
DIAS, M. K. Consequências neuropsiquiátricas do uso de inalantes entre adolescentes: uma revisão sistemática. Revista Brasileira de Saúde Mental, v. 9, n. 1, p. 45–58, 2017.
FERREIRA, R. C.; MONTEIRO, M. A.; NASCIMENTO, D. S. Efeitos neurológicos do uso crônico de solventes em jovens em situação de rua. Revista de Saúde e Pesquisa, v. 12, n. 2, p. 223–231, 2019.
RODRIGUES, T. F.; OLIVEIRA, C. A. Alterações hematológicas decorrentes do uso prolongado de substâncias voláteis. Revista Brasileira de Toxicologia Clínica, v. 26, n. 1, p. 33–39, 2018.
SANTOS, V. L.; COSTA, M. S.; ALMEIDA, J. R. Comprometimento hepático e renal pelo uso prolongado de tolueno: revisão integrativa. Revista Ciência em Saúde, v. 10, n. 3, p. 71–79, 2020.

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