Por que Dependentes Químicos de Crack Não Sentem Fome e São Tão Magros
25/07/2025
Por Raique Almeida
O uso do crack está associado a intensas alterações fisiológicas, neurológicas e comportamentais, sendo um dos fatores que explicam o emagrecimento extremo e a perda de apetite observados em muitos usuários crônicos. O crack, forma fumável da cocaína, tem ação psicoestimulante potente, afetando diretamente o sistema nervoso central, especialmente os circuitos relacionados à dopamina. Segundo Ribeiro. (2015), o consumo da substância leva a um estado de euforia intensa, hiperatividade e perda da necessidade momentânea de dormir ou se alimentar, resultando em um quadro de inapetência prolongada.
Do ponto de vista neurobiológico, o crack provoca uma liberação abrupta de dopamina, neurotransmissor ligado ao prazer, à motivação e à recompensa. Isso interfere na regulação do hipotálamo, área cerebral responsável pelo controle da fome, do sono e da temperatura corporal. Conforme explica Carlini (2010), a estimulação excessiva dessa região leva o organismo a interpretar que suas necessidades básicas estão satisfeitas, mesmo em ausência real de ingestão alimentar, contribuindo para o desinteresse pela comida. Essa condição é agravada pela compulsividade do uso, já que muitos adictos permanecem longos períodos em consumo contínuo, negligenciando o autocuidado.
Além dos aspectos neurológicos, fatores sociais e emocionais também reforçam o quadro de magreza extrema. Usuários de crack frequentemente vivem em contextos de vulnerabilidade social, onde há insegurança alimentar, dificuldades de acesso à saúde e falta de suporte familiar. A marginalização vivida por essas pessoas compromete ainda mais a manutenção de hábitos alimentares mínimos. Estudos como o de Noto. (2013) apontam que o ambiente em que se dá o uso é marcado por instabilidade, violência e ausência de rotina, dificultando qualquer tentativa de alimentação regular e saudável.
A desnutrição entre usuários de crack não é, portanto, apenas uma consequência do efeito fisiológico da substância, mas um reflexo de um conjunto de fatores biopsicossociais que se retroalimentam. O organismo entra em colapso metabólico pela ausência de nutrientes, levando à perda de massa muscular e à fragilidade do sistema imunológico. De acordo com Andrade. (2017), esse estado de debilidade física favorece o aparecimento de doenças infecciosas, como tuberculose e pneumonia, condições comuns entre essa população.
Por fim, é importante destacar que a recuperação nutricional e metabólica de pessoas em uso crônico de crack demanda mais do que a interrupção do uso. Envolve intervenções integradas que considerem aspectos médicos, psicológicos e sociais. A reintegração alimentar e a restauração do apetite são processos gradativos e precisam ser acompanhados de estratégias terapêuticas multidisciplinares, como reforça Bastos. (2014), sendo essencial o investimento em políticas públicas que garantam tratamento digno, alimentação adequada e suporte contínuo à reinserção social.
Referências
ANDRADE, T. M. de; OLIVEIRA, M. C. de; SOUZA, R. F. Saúde física e vulnerabilidades de usuários de crack: uma revisão integrativa. Revista de Enfermagem UFPE, Recife, v. 11, n. 1, p. 290-298, 2017.
BASTOS, F. I. Drogas e pobreza: um estudo da interface entre consumo de substâncias psicoativas e desigualdades sociais. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 19, n. 7, p. 2117-2124, 2014.
CARLINI, E. A. Drogas psicoativas e seu impacto na saúde. São Paulo: UNIFESP, 2010.
NOTO, A. R. Uso de crack e mortalidade: uma análise crítica da literatura. Revista Brasileira de Psiquiatria, São Paulo, v. 35, n. 1, p. 92-98, 2013.
RIBEIRO, L. A. Consequências clínicas e neuropsiquiátricas do uso crônico de crack: uma revisão. Jornal Brasileiro de Psiquiatria, Rio de Janeiro, v. 64, n. 2, p. 149-157, 2015.
