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— Saúde Mental

A paranoia e as síndromes paranoides

Grupo Messias
A paranoia e as síndromes paranoides

Por Raique Almeida

            A paranoia é uma forma de transtorno mental caracterizada principalmente por delírios sistemáticos, geralmente de teor persecutório, sem deterioração das capacidades intelectuais do indivíduo nas fases iniciais. Esse quadro foi objeto de estudo por importantes nomes da psiquiatria brasileira, como Juliano Moreira e Afrânio Peixoto, cujos trabalhos no início do século XX contribuíram de forma significativa para o entendimento das doenças mentais no país.

Juliano Moreira destacou-se por seu posicionamento contra o racismo científico e por propor uma abordagem mais científica e humanista da psiquiatria. Em seus estudos sobre a paranoia, Moreira apontou que os pacientes apresentavam ideias delirantes bem organizadas, muitas vezes lógicas e persistentes, o que dificultava o diagnóstico precoce. Essa organização do delírio, que não compromete a clareza do raciocínio, faz com que o paciente mantenha sua conduta social aparentemente normal, o que pode atrasar o reconhecimento da patologia. Além disso, ele alertava que esse tipo de transtorno não deveria ser confundido com outras psicoses, como a esquizofrenia, pois a paranoia pura não costuma envolver alucinações ou desorganização mental nas fases iniciais.

Afrânio Peixoto, por sua vez, trouxe uma leitura mais ampliada, que incorporava aspectos culturais e simbólicos ao entendimento da paranoia. Para ele, os delírios de perseguição, megalomania ou ciúmes exagerados não podiam ser compreendidos apenas por uma ótica clínica restrita, mas também como respostas subjetivas a contextos sociais opressivos ou conflituosos. Assim, os conteúdos dos delírios paranoides muitas vezes refletiam crenças, valores e experiências sociais do paciente, funcionando como uma forma de expressão de angústias profundas.

As chamadas síndromes paranoides abrangem diferentes manifestações clínicas associadas à paranoia, como o transtorno delirante persistente e outras formas de delírio com temas fixos. Embora compartilhem a característica central de ideias delirantes inflexíveis, esses quadros variam quanto à temática, à gravidade e à interferência na vida do sujeito. Moreira e Peixoto enfatizavam a necessidade de escuta atenta e compreensão contextual de cada caso, defendendo uma postura ética diante do sofrimento mental.

Além das contribuições clínicas, os autores também se destacaram por defender o tratamento humanizado dos pacientes psiquiátricos. Em uma época marcada por práticas de exclusão e isolamento nos hospitais, ambos propunham uma psiquiatria mais aberta ao diálogo com as ciências humanas e atenta à dignidade do sujeito. Suas reflexões permanecem atuais ao mostrar que a paranoia não pode ser compreendida isoladamente do contexto histórico e social em que se manifesta. Portanto, seu legado vai além da psiquiatria e se insere em uma visão mais ampla de saúde mental e de humanidade.

Referência:

MOREIRA, Juliano; PEIXOTO, Afrânio. A paranoia e as síndromes paranoides. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 17, supl. 2, p. 69-84, dez. 2010.

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