O Quinto Passo em Narcóticos Anônimos: A importância da confissão e da aceitação
28/08/2025

Por Raique Almeida
O programa de Narcóticos Anônimos (NA) propõe um caminho espiritual e prático para a recuperação da dependência química, estruturado nos Doze Passos. O Quinto Passo, enunciado como “Admitimos a Deus, a nós mesmos e a outro ser humano a natureza exata de nossas falhas”, constitui um marco fundamental no processo, pois envolve a prática da honestidade profunda, da partilha e da aceitação de si mesmo (NA, 2008).
Após o Quarto Passo, que consiste em um inventário moral minucioso; o Quinto Passo surge como a oportunidade de verbalizar e compartilhar tais falhas, não apenas em um diálogo interno, mas diante de outro ser humano. Essa atitude rompe com a lógica do isolamento, típica da adicção, que frequentemente mantém o indivíduo preso a sentimentos de vergonha, culpa e negação (MORGAN, 2012). Assim, o ato de revelar suas fraquezas torna-se um gesto de humildade e libertação, já que “segredos alimentam a doença” (NA, 2008, p. 38).
A dimensão espiritual do Quinto Passo também se destaca. Ao admitir as falhas perante uma “Força Superior”, o dependente reconhece sua limitação e a necessidade de apoio além de suas próprias forças. De acordo com Carl Rogers (1997), o crescimento pessoal só é possível quando o indivíduo se engaja em um processo autêntico de aceitação de si mesmo, o que dialoga diretamente com o exercício de honestidade e vulnerabilidade presente neste passo.
No aspecto psicológico, o Quinto Passo atua como um processo de catarse e reestruturação do eu. Estudos em psicologia clínica ressaltam que a verbalização de conteúdos traumáticos ou vergonhosos em um espaço seguro e de aceitação empática promove alívio, reorganização cognitiva e maior autocontrole emocional (YALOM, 2006). Nesse sentido, compartilhar com outro ser humano, geralmente um padrinho ou membro de confiança de NA, amplia a dimensão de acolhimento e pertencimento comunitário.
Portanto, o Quinto Passo de Narcóticos Anônimos é mais que uma etapa formal do programa; ele simboliza a transição da introspecção para a partilha, possibilitando ao indivíduo vivenciar a honestidade, fortalecer vínculos e iniciar um processo de cura emocional e espiritual. Sua prática ressignifica o passado, reduz o peso da culpa e abre espaço para uma vida mais autêntica e livre das amarras do segredo.
Referências
MORGAN, D. Addiction Recovery: Twelve Step Programs and Beyond. New York: Routledge, 2012.
NARCÓTICOS ANÔNIMOS. Texto Básico. 6. ed. Rio de Janeiro: JUNAAB, 2008.
ROGERS, C. Tornar-se Pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
YALOM, I. D. A teoria e a prática da psicoterapia de grupo. Porto Alegre: Artmed, 2006.