Drogas e Acesso de Menores em Festas: Desafios, Impactos e Caminhos de Prevenção
11/08/2025

Por Raique Almeida
O consumo de drogas por menores de idade em ambientes festivos é um fenômeno que preocupa famílias, escolas, autoridades e profissionais de saúde. Embora a legislação brasileira, por meio do Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069/1990), proíba a venda, o fornecimento e a permissão de consumo de bebidas alcoólicas e outras drogas por pessoas menores de 18 anos, a realidade social mostra que muitos adolescentes conseguem acesso fácil a essas substâncias, especialmente em festas públicas ou privadas.
A iniciação ao uso de drogas nesse contexto é favorecida por fatores como pressão de grupo, busca por pertencimento social e a cultura de permissividade que, muitas vezes, normaliza o consumo de álcool como um rito de passagem para a vida adulta (Becker, 2008). Estudos do II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Carlini et al., 2010) apontam que o contato precoce com substâncias psicoativas aumenta significativamente o risco de dependência química, além de estar associado a maior vulnerabilidade a acidentes, violência e práticas sexuais de risco.
Em eventos e festas, o risco é potencializado pela combinação de múltiplos elementos: alta concentração de pessoas, som elevado, ambientes pouco iluminados, falta de controle efetivo sobre a entrada e saída de menores, e a presença de adultos que, voluntária ou involuntariamente, facilitam o acesso às drogas. Como reforça Babor et al. (2010), a disponibilidade e a exposição direta ao consumo aumentam a probabilidade de experimentação, especialmente em jovens cujo desenvolvimento emocional e cognitivo ainda está em formação.
Do ponto de vista da saúde pública, essa realidade exige um olhar intersetorial. Não se trata apenas de intensificar ações policiais ou endurecer penalidades para organizadores de eventos que permitem o acesso de menores a drogas, mas também de implementar estratégias educativas contínuas. Freire e Shor (1986) lembram que a educação libertadora deve problematizar a realidade e oferecer às jovens ferramentas críticas para compreender e resistir às pressões sociais que incentivam comportamentos de risco.
Outro ponto importante é o papel da família. A ausência de diálogo aberto e franco sobre o uso de drogas favorece a busca de informações em fontes pouco confiáveis, o que pode reforçar mitos e diminuir a percepção de risco. Além disso, a própria comunidade precisa se engajar no enfrentamento desse cenário, denunciando irregularidades e apoiando programas de prevenção.
A prevenção eficaz deve ser construída com base em três eixos principais: Educação, com programas escolares que abordem de forma realista e participativa as consequências do uso precoce de drogas, com base em evidências científicas e no desenvolvimento da consciência crítica. Fiscalização e responsabilidade legal, tendo ações mais rigorosas contra estabelecimentos e eventos que permitam o acesso de menores a drogas, incluindo multas, interdição e responsabilização criminal. Fortalecimento de vínculos, a partir da criação de espaços de lazer alternativos e seguros para adolescentes, que favoreçam a socialização sem o uso de substâncias psicoativas.
Portanto, o acesso de menores a drogas em festas é um problema que não pode ser tratado apenas como questão de segurança, mas como desafio social, cultural e educacional. O combate eficaz demanda articulação entre poder público, instituições de ensino, famílias e comunidade, para que se construa uma cultura de cuidado e prevenção que proteja a saúde e o futuro dos jovens.
Referências
- BABOR, T. et al. Alcohol: No Ordinary Commodity. 2. ed. Oxford: Oxford University Press, 2010.
- BECKER, H. Outsiders: Estudos de Sociologia do Desvio. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
- CARLINI, E. A. et al. II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD). São Paulo: UNIFESP, 2010.
- FREIRE, P.; SHOR, I. Medo e Ousadia: O Cotidiano do Professor. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.