Adoecimento Mental e Saúde Mental no Trabalho: desafios contemporâneos e perspectivas de cuidado
30/08/2025

Por Raique Almeida
O adoecimento mental no ambiente de trabalho tem se configurado como um dos principais desafios contemporâneos para a saúde pública e organizacional. O contexto laboral, atravessado por pressões por produtividade, instabilidade empregatícia e excesso de demandas, contribui significativamente para o desenvolvimento de transtornos psíquicos, como ansiedade, depressão e síndrome de burnout. Segundo Dejours (1992), o trabalho pode ser fonte de realização e reconhecimento, mas também de sofrimento, quando as condições não favorecem o equilíbrio entre as exigências da atividade e a subjetividade do trabalhador.
O fenômeno do adoecimento mental no trabalho está intimamente ligado às transformações socioeconômicas e tecnológicas que intensificaram a competitividade e flexibilizaram os vínculos empregatícios. Estudos indicam que a precarização laboral, aliada à falta de políticas de cuidado no ambiente organizacional, amplia a vulnerabilidade do trabalhador a doenças psíquicas (SILVA; SILVA, 2021). A Organização Mundial da Saúde (OMS, 2019) já havia apontado que os transtornos mentais relacionados ao trabalho representam uma das principais causas de afastamento profissional em escala global, impactando não apenas os indivíduos, mas também a produtividade das instituições.
No Brasil, a síndrome de burnout foi reconhecida oficialmente como doença ocupacional pela Organização Mundial da Saúde em 2022, o que reforça a necessidade de ações institucionais voltadas à prevenção e promoção da saúde mental. Para Seligmann-Silva (2011), a saúde mental no trabalho precisa ser compreendida como parte de uma política de direitos humanos, onde as condições laborais respeitem a dignidade, a subjetividade e a integridade dos sujeitos. Nesse sentido, o papel das empresas não deve se limitar à produtividade, mas estender-se à criação de ambientes que promovam bem-estar, escuta e suporte psicossocial.
A psicodinâmica do trabalho, proposta por Dejours (2004), evidencia que o sofrimento pode ser transformado em prazer quando o trabalhador encontra reconhecimento em suas atividades. Entretanto, quando esse reconhecimento é substituído por cobranças excessivas, metas inalcançáveis e relações interpessoais fragilizadas, há um processo de desgaste subjetivo que culmina no adoecimento. Por isso, pensar em saúde mental no trabalho não é apenas uma questão clínica, mas também ética, social e política.
Dessa forma, a promoção da saúde mental no trabalho exige práticas preventivas e integrativas, como programas de acolhimento, acompanhamento psicológico, incentivo à comunicação aberta e valorização do equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Como destacam Lancman e Uchida (2015), a construção de políticas organizacionais voltadas à saúde mental demanda uma mudança cultural, na qual o trabalhador seja reconhecido como sujeito integral e não apenas como recurso produtivo.
Portanto, compreender o adoecimento mental no contexto laboral implica analisar as contradições do trabalho contemporâneo e propor estratégias que contemplem o cuidado integral do trabalhador. Mais do que uma demanda organizacional, trata-se de um compromisso ético e social em defesa da vida e da dignidade humana.
Referências
DEJOURS, Christophe. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. São Paulo: Cortez, 1992.
DEJOURS, Christophe. Subjetividade, trabalho e ação. Revista Produção, v. 14, n. 3, p. 27-34, 2004.
LANCMAN, Selma; UCHIDA, Sonia. Saúde mental e trabalho: questões contemporâneas. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, v. 40, n. 131, p. 98-107, 2015.
SELIGMANN-SILVA, Edith. Saúde mental no trabalho e direitos humanos. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, v. 36, n. 123, p. 6-18, 2011.
SILVA, João; SILVA, Maria. Adoecimento mental no trabalho: impactos da precarização laboral. Revista Psicologia e Trabalho, v. 21, n. 2, p. 45-59, 2021.