Trabalho, Pressões Sociais e o Consumo Compulsivo de Drogas como Estratégia de Alívio Psicológico
30/08/2025

Por Raique Almeida
O contexto social contemporâneo tem sido marcado por um ritmo acelerado, em que as exigências laborais e as cobranças por produtividade se intensificam cada vez mais. Nesse cenário, o trabalho em excesso pode se tornar não apenas uma forma de desgaste físico, mas também um fator de sofrimento mental, levando indivíduos a buscarem meios artificiais de alívio. Entre esses mecanismos, o consumo de drogas surge como uma tentativa de suportar pressões psicológicas, ainda que resulte em consequências nocivas para a saúde e para a vida social.
Segundo Dejours (1992), o trabalho, além de ser um meio de realização pessoal, pode ser fonte de sofrimento psíquico quando estruturado em condições desumanas, onde prevalece a lógica da competitividade e do rendimento. Esse sofrimento, quando não encontra espaços de escuta e acolhimento, tende a ser abafado por mecanismos compensatórios. Nesse sentido, a droga pode assumir o papel de mediadora entre o indivíduo e a realidade, funcionando como anestésico diante da exaustão.
A literatura aponta que o estresse ocupacional é um dos principais preditores de uso abusivo de substâncias. De acordo com Silva e Carvalho (2020), a sobrecarga de trabalho, somada à falta de equilíbrio entre vida pessoal e profissional, favorece o uso compulsivo de drogas, muitas vezes associado à tentativa de relaxamento e fuga. A compulsividade, nesse contexto, não surge apenas como resultado do prazer proporcionado pela substância, mas como uma forma de lidar com a pressão constante de corresponder às expectativas sociais e profissionais.
Além disso, o fenômeno está diretamente relacionado à lógica do neoliberalismo, que transforma indivíduos em empreendedores de si mesmos, pressionando-os à constante superação de limites (Han, 2017). Tal perspectiva intensifica quadros de ansiedade, depressão e, consequentemente, práticas autodestrutivas, como o uso de drogas. O sujeito, ao tentar responder às demandas externas, acaba fragilizado internamente, desenvolvendo comportamentos compulsivos que mascaram temporariamente o sofrimento.
Dessa forma, o consumo de drogas em decorrência das pressões sociais não deve ser analisado apenas sob a ótica biomédica, mas também social e psicológica. É necessário compreender que a compulsão química muitas vezes se apresenta como resposta a um ambiente hostil, marcado por jornadas extenuantes e pela ausência de políticas de saúde mental no trabalho. Como afirma Boff (2002), o ser humano precisa de cuidado integral, que envolve corpo, mente e espírito, caso contrário, tende a adoecer em todas essas dimensões.
Portanto, a compreensão das relações entre trabalho excessivo, pressões sociais e uso compulsivo de drogas exige uma abordagem multidisciplinar, capaz de propor estratégias de prevenção e cuidado. O enfrentamento dessa realidade passa pela construção de ambientes laborais mais saudáveis, pelo fortalecimento de redes de apoio e pela valorização da saúde mental como parte essencial da dignidade humana.
Referências
BOFF, Leonardo. Saber Cuidar: Ética do Humano – Compaixão pela Terra. Petrópolis: Vozes, 2002.
DEJOURS, Christophe. A Loucura do Trabalho: Estudo de Psicopatologia do Trabalho. 5. ed. São Paulo: Cortez-Oboré, 1992.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.
SILVA, Renata; CARVALHO, Ana Paula. Uso de substâncias psicoativas e estresse ocupacional: uma análise psicossocial. Revista Psicologia e Saúde, v. 12, n. 1, p. 45-60, 2020.